quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas - CAPÍTULO XLIV / UM CUBAS!


Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas




CAPÍTULO XLIV / UM CUBAS!






Meu pai ficou atônito com o desenlace, e quer-me parecer que não morreu de outra coisa. Eram tantos os castelos que engenhara, tantos e tantíssimos os sonhos, que não podia vê-los assim esboroados, sem padecer um forte abalo no organismo. A princípio não quis crê-lo. Um Cubas! um galho da árvore ilustre dos Cubas! E dizia isto com tal convicção, que eu, já então informado da nossa tanoaria, esqueci um instante a volúvel dama, para só contemplar aquele fenômeno, não raro, mas curioso: uma imaginação graduada em consciência.
— Um Cubas! repetia-me ele na seguinte manhã, ao almoço.
Não foi alegre o almoço; eu próprio estava a cair de sono. Tinha velado uma parte da noite. De amor? Era impossível; não se ama duas vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquela, tempos depois, não lhe estava agora preso por nenhum outro vínculo, além de uma fantasia passageira, alguma obediência e muita fatuidade. E isto basta a explicar a vigília; era despeito, um despeitozinho agudo como ponta de alfinete, o qual se desfez, com charutos, murros, leituras truncadas, até romper a aurora, a mais tranqüila das auroras.
Mas eu era moço, tinha o remédio em mim mesmo. Meu pai é que não pôde suportar facilmente a pancada. Pensando bem, pode ser que não morresse precisamente do desastre; mas que o desastre lhe complicou as últimas dores, é positivo. Morreu daí a quatro meses, — acabrunhado, triste, com uma preocupação intensa e contínua, à semelhança de remorso, um desencanto mortal, que lhe substituiu os reumatismos e tosses. Teve ainda meia hora de alegria; foi quando um dos ministros o visitou. Vi-lhe, — lembra-me bem, — vi-lhe o grato sorriso de outro tempo, e nos olhos uma concentração de 1uz, que era, por assim dizer, o último lampejo da alma expirante. Mas a tristeza tornou logo, a tristeza de morrer sem me ver posto em algum lugar alto, como aliás me cabia.
— Um Cubas!
Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma manhã de maio, entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o tio Ildefonso e meu cunhado. Morreu sem lhe poder valer a ciência dos médicos, nem o nosso amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem coisa nenhuma; tinha de morrer, morreu.
— Um Cubas!








Links


Sanderlei Silveira (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

historia1minuto.com.br

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas - CAPÍTULO XLIII / MARQUESA, PORQUE EU SEREI MARQUÊS


Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas




CAPÍTULO XLIII / MARQUESA, PORQUE EU SEREI MARQUÊS





Positivamente, era um diabrete Virgília, um diabrete angélico, se querem, mas era-o, e então...
Então apareceu o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais simpático, e todavia foi quem me arrebatou Virgília e a candidatura, dentro de poucas semanas, com um ímpeto verdadeiramente cesariano. Não precedeu nenhum despeito; não houve a menor violência de família. Dutra veio dizer-me, um dia, que esperasse outra aragem, porque a candidatura de Lobo Neves era apoiada por grandes influências. Cedi; tal foi o começo da minha derrota. Uma semana depois, Virgília perguntou ao Lobo Neves, a sorrir, quando seria ele ministro.
— Pela minha vontade, já; pelas dos outros, daqui a um ano.
Virgília replicou:
— Promete que algum dia me fará baronesa?
— Marquesa, porque eu serei marquês.
Desde então fiquei perdido. Virgília comparou a águia e o pavão, e elegeu a águia, deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e três ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que fossem não queria dizer coisa nenhuma. O lábio do homem não écomo a pata do cavalo de Átila, que esterilizava o solo em que batia; é justamente o contrário.







Links


Sanderlei Silveira (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

historia1minuto.com.br

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas - CAPÍTULO XLII / QUE ESCAPOU A ARISTÓTELES




Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas



CAPÍTULO XLII / QUE ESCAPOU A ARISTÓTELES





Outra coisa que também me parece metafísica é isto: — Dá-se movimento a uma bola, por exemplo; rola esta, encontra outra bola, transmite-lhe o impulso, e eis a segunda boa a rolar como a primeira rolou. Suponhamos que a primeira bola se chama... Marcela, — é uma simples suposição; a segunda, Brás Cubas; a terceira, Virgília. Temos que Marcela, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Brás Cubas, — o qual, cedendo à força impulsiva, entrou a rolar também até esbarrar em Virgília, que não tinha nada com a primeira bola; e eis aí como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos sociais, e se estabelece uma coisa que poderemos chamar — solidariedade do aborrecimento humano. Como é que este capítulo escapou a Aristóteles?









Links


Sanderlei Silveira (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

historia1minuto.com.br


domingo, 27 de setembro de 2015

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas - CAPÍTULO XLI / A ALUCINAÇÃO


Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas


CAPÍTULO XLI / A ALUCINAÇÃO





Era verdade. Entrei apressado; achei Virgília ansiosa, mau humor, fronte nublada. A mãe, que era surda, estava na sala com ela. No fim dos cumprimentos disse-me a moça com sequidão:
— Esperávamos que viesse mais cedo.
Defendi-me do melhor modo; falei do cavalo que empacara, e de um amigo, que me detivera. De repente morre-me a voz nos lábios, fico tolhido de assombro. Virgília... seria Virgília aquela moça? Fitei-a muito, e a sensação foi tão penosa, que recuei um passo e desviei a vista. Tornei a olhá-la. As bexigas tinham-lhe comido o rosto; a pele, ainda na véspera tão fina, rosada e pura, aparecia-me agora amarela, estigmada pelo mesmo flagelo, que devastara o rosto da espanhola. Os olhos, que eram travessos, fizeram-se murchos; tinha
o lábio triste e a atitude cansada. Olhei-a bem; peguei-lhe na mão, e chamei-a brandamente a mim. Não me enganava; eram as bexigas. Creio que fiz um gesto de repulsa.
Virgília afastou-se, e foi sentar-se no sofá. Eu fiquei algum tempo a olhar para os meus próprios pés. Devia sair ou ficar? Rejeitei o primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo, e encaminhei-me para Virgília, que lá estava sentada e calada. Céus! Era outra vez a fresca, a juvenil, a florida Virgília. Em vão procurei no rosto dela algum vestígio da doença; nenhum havia; era a pele fina e branca do costume.
— Nunca me viu? perguntou Virgília, vendo que a encarava com insistência.
— Tão bonita, nunca.
Sentei-me, enquanto Virgília, calada, fazia estalar as unhas. Seguiram-se alguns segundos de pausa. Falei-lhe de coisas estranhas ao incidente; ela porém não me respondia nada, nem olhava para mim. Menos o estalido, era a estátua do Silêncio. Uma só vez me deitou os olhos, mas muito de cima, soerguendo a pontinha esquerda do lábio, contraindo as sobrancelhas, ao ponto de as unir; todo esse conjunto de coisas dava-lhe ao rosto uma expressão média, entre cômica e trágica.
Havia alguma afetação naquele desdém; era um arrebique do gesto. Lá dentro, ela padecia, e não pouco, — ou fosse mágoa pura, ou só despeito; e porque a dor que se dissimula dói mais, é muito provável que Virgília padecesse em dobro do que realmente devia padecer. Creio que isto é metafísica.









Links


Sanderlei Silveira (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

historia1minuto.com.br


sábado, 26 de setembro de 2015

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas - CAPÍTULO XL / NA SEGE



Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas


CAPÍTULO XL / NA SEGE





Nisto entrou o moleque trazendo o relógio com o vidro novo. Era tempo; já me custava estar ali; dei uma moedinha de prata ao moleque; disse a Marcela que voltaria noutra ocasião, e saí a passo largo. Para dizer tudo, devo confessar que o coração me batia um pouco; mas era uma espécie de dobre de finados. O espírito ia travado de impressões opostas. Notem que aquele dia amanhecera alegre para mim. Meu pai, ao almoço, repetiu-me, por antecipação, o primeiro discurso que eu tinha de proferir na Câmara dos Deputados; rimo-nos muito, e o sol também, que estava brilhante, como nos mais belos dias do mundo; do mesmo modo que Virgília devia rir, quando eu lhe contasse as nossas fantasias do almoço. Vai senão quando, cai-me o vidro do relógio; entro na primeira loja que me fica à mão; e eis me surge o passado, ei-lo que me lacera e beija; ei-lo que me interroga, com um rosto cortado de saudades e bexigas...
Lá o deixei; meti-me às pressas na sege, que me esperava no Largo de São Francisco de Paula, e ordenei ao boleeiro que rodasse pelas ruas fora. O boleeiro atiçou as bestas, a sege entrou a sacolejar-me, as molas gemiam, as rodas sulcavam rapidamente a lama que deixara a chuva recente, e tudo isso me parecia estar parado. Não há, às vezes, um certo vento morno, não forte nem áspero, mas abafadiço, que nos não leva o chapéu da cabeça, nem rodomoinha nas saias das mulheres, e todavia é ou parece ser pior do que se fizesse uma e outra coisa, porque abate, afrouxa, e como que dissolve os espíritos? Pois eu tinha esse vento comigo; e, certo de que ele me soprava por achar-me naquela espécie de garganta entre
o passado e o presente, almejava por sair à planície do futuro. O pior é que a sege não andava.
— João, bradei eu ao boleeiro. Esta sege anda ou não anda?
— Uê! nhonhô! Já estamos parados na porta de sinhô conselheiro.







Links


Sanderlei Silveira (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

historia1minuto.com.br

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas - CAPÍTULO XXXIX / O VIZINHO




Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas




CAPÍTULO XXXIX / O VIZINHO




Enquanto eu fazia comigo mesmo aquela reflexão, entrou na loja um sujeito baixo, sem chapéu, trazendo pela mão uma menina de quatro anos.
— Como passou de hoje de manhã? disse ele a Marcela.
— Assim, assim. Vem cá, Maricota.
O sujeito levantou a criança pelos braços e passou-a para dentro do balcão.
— Anda, disse ele; pergunta a D. Marcela como passou a noite. Estava ansiosa por vir cá, mas a mãe não tinha podido vesti-la.., Então, Maricota? Toma a bênção... Olha a vara de marmelo! Assim... Não imagina o que ela é lá em casa; fala na senhora a todos os instantes, e aqui parece uma pamonha. Ainda ontem... Digo, Maricota?
— Não, diga, não, papai.
— Então foi alguma coisa feia? perguntou Marcela batendo na cara da menina.
— Eu lhe digo; a mãe ensina-lhe a rezar todas as noites um padre-nosso e uma ave-maria, oferecidos a Nossa Senhora; mas a pequena ontem veio pedir-me com voz muito humilde... imagine o quê?... que queria oferecê-los a Santa Marcela.
— Coitadinha! disse Marcela beijando-a.
— É um namoro, uma paixão, como a senhora não imagina... A mãe diz que é feitiço...
Contou mais algumas coisas o sujeito, todas muito agradáveis, até que saiu levando a menina, não sem deitar-me um olhar interrogativo ou suspeitoso. Perguntei a Marcela quem era ele.
— É um relojoeiro da vizinhança, um bom homem; a mulher também; e a filha é galante, não? Parecem gostar muito de mim... é boa gente.
Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de Marcela; e no rosto como que se lhe espraiou uma onda de ventura...



Links


Sanderlei Silveira (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

historia1minuto.com.br

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas - CAPÍTULO XXXVIII / A QUARTA EDIÇÃO



Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas




CAPÍTULO XXXVIII / A QUARTA EDIÇÃO




— Venha cá jantar amanhã, disse-me o Dutra uma noite.
Aceitei o convite. No dia seguinte, mandei que a sege me esperasse no Largo de São Francisco de Paula, e fui dar várias voltas. Lembra-vos ainda a minha teoria das edições humanas? Pois sabei que, naquele tempo, estava eu na quarta edição, revista e emendada, mas ainda inçada de descuidos e barbarismos; defeito que, aliás, achava alguma compensação no tipo, que era elegante, e na encadernação, que era luxuosa. Dadas as voltas, ao passar pela Rua dos Ourives, consulto o relógio e cai-me o vidro na calçada. Entro na primeira loja que tinha à mão; era um cubículo, — pouco mais, — empoeirado e escuro.
Ao fundo, por trás do balcão, estava sentada uma mulher, cujo rosto amarelo e bexiguento não se destacava logo, à primeira vista; mas logo que se destacava era um espetáculo curioso. Não podia ter sido feia; ao contrário, via-se que fora bonita, e não pouco bonita; mas a doença e uma velhice precoce, destruíam-lhe a flor das graças. As bexigas tinham sido terríveis; os sinais, grandes e muitos, faziam saliências e encarnas, declives e aclives, e davam uma sensação de lixa grossa, enormemente grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e aliás tinham uma expressão singular e repugnante, que mudou, entretanto, logo que eu comecei a falar. Quanto ao cabelo, estava ruço e quase tão poento como os portais da loja. Num dos dedos da mão esquerda fulgia-lhe um diamante. Crê-lo-eis, pósteros? essa mulher era Marcela.
Não a conheci logo; era difícil; ela porém conheceu-me apenas lhe dirigi a palavra. Os olhos chisparam e trocaram a expressão usual por outra, meio doce e meio triste. Vi-lhe um movimento como para esconder-se ou fugir; era o instinto da vaidade, que não durou mais de um instante. Marcela acomodou-se e sorriu.
— Quer comprar alguma coisa? disse ela estendendo-me a mão.
Não respondi nada. Marcela compreendeu a causa do meu silêncio (não era difícil), e só hesitou, creio eu, em decidir o que dominava mais, se o assombro do presente, se a memória do passado. Deu-me uma cadeira, e, com o balcão permeio, falou-me longamente de si, da vida que levara, das lágrimas que eu lhe fizera verter, das saudades, dos desastres, enfim das bexigas, que lhe escalavraram o rosto, e do tempo, que ajudou a moléstia, adiantando-lhe a decadência. Verdade é que tinha a alma decrépita. Vendera tudo, quase tudo; um homem, que a amara outrora, e lhe morreu nos braços, deixara-lhe aquela loja de ourivesaria, mas, para que a desgraça fosse completa, era agora pouco buscada a loja — talvez pela singularidade de a dirigir uma mulher. Em seguida pediu-me que lhe contasse a minha vida. Gastei pouco tempo em dizer-lha; não era longa, nem interessante.
— Casou? disse Marcela no fim de minha narração.
— Ainda não, respondi secamente.
Marcela lançou os olhos para a rua, com a atonia de quem reflete ou relembra; eu deixei-me ir então ao passado, e, no meio das recordações e saudades, perguntei a mim mesmo por que motivo fizera tanto desatino. Não era esta certamente a Marcela de 1822; mas a beleza de outro tempo valia uma terça parte dos meus sacrifícios? Era o que eu buscava saber, interrogando o rosto de Marcela. O rosto dizia-me que não; ao mesmo tempo os olhos me contavam que, já outrora, como hoje, ardia neles a flama da cobiça. Os meus é que não souberam ver-lha; eram olhos da primeira edição.
— Mas por que entrou aqui? viu-me da rua? perguntou ela, saindo daquela espécie de torpor.
— Não, supunha entrar numa casa de relojoeiro; queria comprar um vidro para este relógio; vou a outra parte; desculpe-me; tenho pressa.
Marcela suspirou com tristeza. A verdade é que eu me sentia pungido e aborrecido, ao mesmo tempo, e ansiava por me ver fora daquela casa. Marcela, entretanto, chamou um moleque, deu-lhe o relógio, e, apesar da minha oposição, mandou-o, a uma loja na vizinhança, comprar o vidro. Não havia remédio; sentei-me outra vez. Disse ela então que desejava ter a proteção dos conhecidos de outro tempo; ponderou que mais tarde ou mais cedo era natural que me casasse, e afiançou que me daria finas jóias por preços baratos. Não disse preços baratos, mas usou uma metáfora delicada e transparente. Entrei a desconfiar que não padecera nenhum desastre (salvo a moléstia), que tinha o dinheiro a bom recado, e que negociava com o único fim de acudir à paixão do lucro, que era o verme roedor daquela existência; foi isso mesmo que me disseram depois.






Links


Sanderlei Silveira (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

historia1minuto.com.br

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas - CAPÍTULO XXXVII / ENFIM!



Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas


CAPÍTULO XXXVII / ENFIM!





Enfim! eis aqui Virgília. Antes de ir à casa do Conselheiro Dutra, perguntei a meu pai se havia algum ajuste prévio de casamento.
— Nenhum ajuste. Há tempos, conversando com ele a teu respeito, confessei-lhe o desejo que tinha de te ver deputado; e de tal modo falei, que ele prometeu fazer alguma coisa, e creio que o fará. Quanto à noiva, é o nome que dou a uma criaturinha, que é uma jóia, uma flor, uma estrela, uma coisa rara... é a filha dele; imaginei que, se casasses com ela, mais depressa serias deputado.
— Só isto?
— Só isto.
Fomos dali à casa do Dutra. Era uma pérola esse homem, risonho, jovial, patriota, um pouco irritado com os males públicos, mas não desesperando de os curar depressa. Achou que a minha candidatura era legítima; convinha, porém, esperar alguns meses. E logo me apresentou à mulher, — uma estimável senhora, — e à filha, que não desmentiu em nada o panegírico de meu pai. Juro-vos que em nada. Relede o capítulo XXVII. Eu, que levava idéias a respeito da pequena, fitei-a de certo modo; ela, que não sei se as tinha, não me fitou de modo diferente; e o nosso olhar primeiro foi pura e simplesmente conjugal. No fim de um mês estávamos íntimos.








Links


Sanderlei Silveira (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

historia1minuto.com.br

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas - CAPÍTULO XXXVI / A PROPÓSITO DE BOTAS



Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas


CAPÍTULO XXXVI / A PROPÓSITO DE BOTAS




Meu pai, que me não esperava, abraçou-me cheio de ternura e agradecimento. — Agora é deveras? disse ele. Posso enfim...?
Deixei-o nessa reticência, e fui descalçar as botas, que estavam apertadas. Uma vez aliviado, respirei à larga, e deitei-me a fio comprido, enquanto os pés, e todo eu atrás deles, entrávamos numa relativa bem-aventurança. Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da Terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar. Mortifica os pés, desgraçado, desmortifica-os depois, e aí tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de Epicuro. Enquanto esta idéia me trabalhava no famoso trapézio, lançava eu os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha perder-se no horizonte do pretérito, e sentia que o meu coração não tardaria também a descalçar as suas botas. E descalçou-as o lascivo. Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse rápido, inefável e incoercível momento de gozo, que sucede a uma dor pungente, a uma preocupação, a um incômodo... Daqui inferi eu que a vida é o mais engenhoso dos fenômenos, porque só aguça a fome, com o fim de deparar a ocasião de comer, e não inventou os calos, senão porque eles aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas.
Tu, minha Eugênia, é que não as descalçaste nunca; foste aí pela estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os enterros pobres, solitária, calada, laboriosa, até que vieste também para esta outra margem... O que eu não sei é se a tua existência era muito necessária ao século. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos fizesse patear a tragédia humana.







Links


Sanderlei Silveira (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

historia1minuto.com.br

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas - CAPÍTULO XXXVI / A PROPÓSITO DE BOTAS




Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas



CAPÍTULO XXXVI / A PROPÓSITO DE BOTAS





Meu pai, que me não esperava, abraçou-me cheio de ternura e agradecimento. — Agora é deveras? disse ele. Posso enfim...?
Deixei-o nessa reticência, e fui descalçar as botas, que estavam apertadas. Uma vez aliviado, respirei à larga, e deitei-me a fio comprido, enquanto os pés, e todo eu atrás deles, entrávamos numa relativa bem-aventurança. Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da Terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar. Mortifica os pés, desgraçado, desmortifica-os depois, e aí tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de Epicuro. Enquanto esta idéia me trabalhava no famoso trapézio, lançava eu os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha perder-se no horizonte do pretérito, e sentia que o meu coração não tardaria também a descalçar as suas botas. E descalçou-as o lascivo. Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse rápido, inefável e incoercível momento de gozo, que sucede a uma dor pungente, a uma preocupação, a um incômodo... Daqui inferi eu que a vida é o mais engenhoso dos fenômenos, porque só aguça a fome, com o fim de deparar a ocasião de comer, e não inventou os calos, senão porque eles aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas.
Tu, minha Eugênia, é que não as descalçaste nunca; foste aí pela estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os enterros pobres, solitária, calada, laboriosa, até que vieste também para esta outra margem... O que eu não sei é se a tua existência era muito necessária ao século. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos fizesse patear a tragédia humana.




Links


Sanderlei Silveira (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

historia1minuto.com.br

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas - CAPÍTULO XXXV / O CAMINHO DE DAMASCO


Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas


CAPÍTULO XXXV / O CAMINHO DE DAMASCO





Ora aconteceu, que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho de Damasco, ouvi uma voz misteriosa, que me sussurrou as palavras da Escritura (At. IX, 7): “Levanta-te, e entra na cidade.” Essa voz saía de mim mesmo, e tinha duas origens: a piedade, que me desarmava ante a candura da pequena, e o terror de vir a amar deveras, e desposá-la. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida, não há duvidar que ela o achou e mo disse. Foi na varanda, na tarde de uma segunda-feira, ao anunciar-lhe que na seguinte manhã viria para baixo. — Adeus, suspirou ela estendendo-me a mão com simplicidade; faz bem. — E como eu nada dissesse, continuou: — Faz bem em fugir ao ridículo de casar comigo. Ia dizer-lhe que não; ela retirou-se lentamente, engolindo as lágrimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por todos os santos do Céu que eu era obrigado a descer, mas que não deixava de lhe querer e muito; tudo hipérboles frias, que ela escutou sem dizer nada.
— Acredita-me? perguntei eu no fim.
— Não, e digo-lhe que faz bem.
Quis retê-la, mas o olhar que me lançou não foi já de súplica, senão de império. Desci da Tijuca, na manhã seguinte, um pouco amargurado, outro pouco satisfeito. Vinha dizendo a mim mesmo que era justo obedecer a meu pai, que era conveniente abraçar a carreira política... que a constituição... que a minha noiva... que o meu cavalo...





Links


Sanderlei Silveira (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

historia1minuto.com.br

domingo, 20 de setembro de 2015

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas - CAPÍTULO XXXIV / A UMA ALMA SENSÍVEL




Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas


CAPÍTULO XXXIV / A UMA ALMA SENSÍVEL





Há aí, entre as cinco ou dez pessoas que me lêem, há aí uma alma sensível, que está decerto um tanto agastada com o capítulo anterior, começa a tremer pela sorte de Eugênia, e talvez... sim, talvez, lá no fundo de si mesma, me chame cínico. Eu cínico, alma sensível? Pela coxa de Diana! esta injúria merecia ser lavada com sangue, se o sangue lavasse alguma coisa nesse mundo. Não, alma sensível, eu não sou cínico, eu fui homem; meu cérebro foi um tablado em que se deram peças de todo gênero, o drama sacro, o austero, o piegas, a comédia louçã, a desgrenhada farsa, os autos, as bufonerias, um pandemônio, alma sensível, uma barafunda de coisas e pessoas, em que podias ver tudo, desde a rosa de Esmirna até a arruda do teu quintal, desde o magnífico leito de Cleópatra até o recanto da praia em que o mendigo tirita o seu sono. Cruzavam-se nele pensamentos de vária casta e feição. Não havia ali a atmosfera somente da águia e do beija-flor; havia também a da lesma e do sapo. Retira, pois, a expressão, alma sensível, castiga os nervos, limpa os óculos, — que isso às vezes é dos óculos, — e acabemos de uma vez com esta flor da moita.




Links


Sanderlei Silveira (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

historia1minuto.com.br

sábado, 19 de setembro de 2015

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas - CAPÍTULO XXXIII / BEM-AVENTURADOS OS QUE NÃO DESCEM



Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas


CAPÍTULO XXXIII / BEM-AVENTURADOS OS QUE NÃO DESCEM




O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, sem atinar com a solução do enigma. O melhor que há, quando se não resolve um enigma, é sacudi-lo pela janela fora; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta, que me adejava no cérebro. Fiquei aliviado e fui dormir. Mas o sonho, que é uma fresta do espírito, deixou novamente entrar o bichinho, e aí fiquei eu a noite toda a cavar o mistério, sem explicá-lo.
Amanheceu chovendo, transferi a descida; mas no outro dia, a manhã era límpida e azul, e apesar disso deixei-me ficar, não menos que no terceiro dia, e no quarto, até o fim da semana. Manhãs bonitas, frescas, convidativas; lá embaixo a família a chamar-me, e a noiva, e o Parlamento, e eu sem acudir a coisa nenhuma, enlevado ao pé da minha Vênus Manca. Enlevado é uma maneira de realçar o estilo; não havia enlevo, mas gosto, uma certa satisfação física e moral. Queria-lhe, é verdade; ao pé dessa criatura tão singela, filha espúria e coxa, feita de amor e desprezo, ao pé dela sentia-me bem, e ela creio que ainda se sentia melhor ao pé de mim. E isto na Tijuca. Uma simples égloga. D. Eusébia vigiava-nos, mas pouco; temperava a necessidade com a conveniência. A filha, nessa primeira explosão da natureza, entregava-me a alma em flor.
— O senhor desce amanhã? disse-me ela no sábado.
— Pretendo.
— Não desça.
Não desci, e acrescentei um versículo ao Evangelho: — Bem-aventurados os que não descem, porque deles é o primeiro beijo das moças. Com efeito, foi no domingo esse primeiro beijo de Eugênia, —
o primeiro que nenhum outro varão jamais lhe tomara, e não furtado ou arrebatado, mas candidamente entregue, como um devedor honesto paga uma dívida. Pobre Eugênia! Se tu soubesses que idéias me vagavam pela mente fora naquela ocasião! Tu, trêmula de comoção, com os braços nos meus ombros, a contemplar em mim o teu bem-vindo esposo, e eu com os olhos de 1814, na moita, no Vilaça, e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, à tua origem...
D. Eusébia entrou inesperadamente, mas não tão súbita, que nos apanhasse ao pé um do outro. Eu fui até à janela; Eugênia sentou-se a concertar uma das tranças. Que dissimulação graciosa! que arte infinita e delicada! que tartufice profunda! e tudo isso natural, vivo, não estudado, natural como o apetite, natural como o sono. Tanto melhor! D. Eusébia não suspeitou nada.






Links


Sanderlei Silveira (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

historia1minuto.com.br

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas - CAPÍTULO XXXII / COXA DE NASCENÇA



Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas


CAPÍTULO XXXII / COXA DE NASCENÇA




Fui dali acabar os preparativos da viagem. Já agora não me demoro mais. Desço imediatamente; desço, ainda que algum leitor circunspecto me detenha para perguntar se o capítulo passado é apenas uma sensaboria ou se chega a empulhação... Ai, não contava com D. Eusébia. Estava pronto, quando me entrou por casa. Vinha convidar-me para transferir a descida, e ir lá jantar nesse dia. Cheguei a recusar; mas instou tanto, tanto, tanto, que não pude deixar de aceitar; demais, era-lhe devida aquela compensação; fui.
Eugênia desataviou-se nesse dia por minha causa. Creio que foi por minha causa, — se é que não andava muita vez assim. Sem as bichas de ouro, que trazia na véspera, lhe pendiam agora das orelhas, duas orelhas finamente recortadas numa cabeça de ninfa. Um simples vestido branco, de cassa, sem enfeites, tendo ao colo, em vez de broche, um botão de madrepérola, e outro botão nos punhos, fechando as mangas, e nem sombra de pulseira.
Era isso no corpo; não era outra coisa no espírito. Idéias claras, maneiras chãs, certa graça natural, um ar de senhora, e não sei se alguma outra coisa; sim, a boca, exatamente a boca da mãe, a qual me lembrava o episódio de 1814, e então dava-me ímpetos de glosar
o mesmo mote à filha...
— Agora vou mostrar-lhe a chácara, disse a mãe, logo que esgotamos o último gole de café.
Saímos à varanda, dali à chácara, e foi então que notei uma circunstância. Eugênia coxeava um pouco, tão pouco, que eu cheguei a perguntar-lhe se machucara o pé. A mãe calou-se; a filha respondeu sem titubear:
— Não, senhor, sou coxa de nascença.
Mandei-me a todos os diabos; chamei-me desastrado, grosseirão. Com efeito, a simples possibilidade de ser coxa era bastante para lhe não perguntar nada. Então lembrou-me que da primeira vez que a vi
— na véspera — a moça chegara-se lentamente à cadeira da mãe, e que naquele dia já a achei à mesa de jantar. Talvez fosse para encobrir o defeito; mas por que razão o confessava agora? Olhei para ela e reparei que ia triste.
Tratei de apagar os vestígios de meu desazo; — não me foi difícil, porque a mãe era, segundo confessara, uma velha patusca, e prontamente travou de conversa comigo. Vimos toda a chácara, árvores, flores, tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de coisas, que ela me ia mostrando, e comentando, ao passo que eu, de soslaio, perscrutava os olhos de Eugênia...
Palavra que o olhar de Eugênia não era coxo, mas direito, perfeitamente são; vinha de uns olhos pretos e tranqüilos. Creio que duas ou três vezes baixaram estes, um pouco turvados; mas duas ou três vezes somente; em geral, fitavam-me com franqueza, sem temeridade, nem biocos.




Links


Sanderlei Silveira (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

historia1minuto.com.br


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas - CAPÍTULO XXXI / A BORBOLETA PRETA



Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas



CAPÍTULO XXXI / A BORBOLETA PRETA





Na dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da véspera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha de D. Eusébia, no susto que tivera, e na dignidade que, apesar dele, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu a sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite. O gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.
Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.
— Também por que diabo não era ela azul? disse comigo.
E esta reflexão, — uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas, — me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: “Este é provavelmente o inventor das borboletas.” A idéia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia.
Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última idéia restituiu-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já as próvidas formigas... Não, volto à primeira idéia; creio que para ela era melhor ter nascido azul.




Links


Sanderlei Silveira (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

historia1minuto.com.br

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas - CAPÍTULO XXX / A FLOR DA MOITA



Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas

CAPÍTULO XXX / A FLOR DA MOITA





A voz a as saias pertenciam a uma mocinha morena, que se deteve à porta, alguns instantes, ao ver gente estranha. Silêncio curto e constrangido. D. Eusébia quebrou-o, enfim, com resolução e franqueza:
— Vem cá, Eugênia, disse ela, cumprimenta o Dr. Brás Cubas, filho do Sr. Cubas; veio da Europa.
E voltando-se para mim:
— Minha filha Eugênia.
Eugênia, a flor da moita, mal respondeu ao gesto de cortesia que lhe fiz; olhou-me admirada e acanhada, e lentamente se aproximou da cadeira da mãe. A mãe arranjou-lhe uma das tranças do cabelo, cuja ponta se desmanchara. — Ah! travessa! dizia. Não imagina, doutor, o que isto é... E beijou-a com tão expansiva ternura que me comoveu um pouco; lembrou-me minha mãe, e, — direi tudo, — tive umas cócegas de ser pai.
— Travessa? disse eu. Pois já não está em idade própria, ao que parece.
— Quantos lhe dá?
— Dezessete.
— Menos um.
— Dezesseis. Pois então! é uma moça.
Não pôde Eugênia encobrir a satisfação que sentia com esta minha palavra, mas emendou-se logo, e ficou como dantes, ereta, fria e muda. Em verdade, parecia ainda mais mulher do que era; seria criança nos seus folgares de moça; mas assim quieta, impassível, tinha a compostura da mulher casada. Talvez essa circunstância lhe diminuía um pouco da graça virginal. Depressa nos familiarizamos; a mãe fazia-lhe grandes elogios, eu escutava-os de boa sombra, e ela sorria com os olhos fúlgidos, como se lá dentro do cérebro lhe estivesse a voar uma borboletinha de asas de ouro e olhos de diamante...
Digo lá dentro, porque cá fora o que esvoaçou foi uma borboleta preta, que subitamente penetrou na varanda, e começou a bater as asas em derredor de D. Eusébia. D. Eusébia deu um grito, levantou-se, praguejou umas palavras soltas: — T'esconjuro!... Sai, diabo!... Virgem Nossa Senhora!...
— Não tenha medo, disse eu; e, tirando o lenço, expeli a borboleta.
D. Eusébia sentou-se outra vez, ofegante, um pouco envergonhada; a filha, pode ser que pálida de medo, dissimulava a impressão com muita força de vontade. Apertei-lhes a mão e saí, a rir comigo da superstição das duas mulheres, um rir filosófico, desinteressado, superior. De tarde, vi passar a cavalo a filha de D. Eusébia, seguida de um pajem; fez-me um cumprimento com a ponta do chicote. Confesso que me lisonjeei com a idéia de que, alguns passos adiante, ela voltaria a cabeça para trás; mas não voltou.





Links


Sanderlei Silveira (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

historia1minuto.com.br


terça-feira, 15 de setembro de 2015

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas - CAPÍTULO XXIX / A VISITA



Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas




CAPÍTULO XXIX / A VISITA



Vencera meu pai; dispus-me a aceitar o diploma e o casamento, Virgília e a Câmara dos Deputados. — As duas Virgílias, disse ele num assomo de ternura política. Aceitei-os; meu pai deu-me dois fortes abraços. Era o seu próprio sangue que ele, enfim, reconhecia.
— Desces comigo?
— Desço amanhã. Vou fazer primeiramente uma visita a D. Eusébia...
Meu pai torceu o nariz, mas não disse nada; despediu-se e desceu. Eu, na tarde desse mesmo dia, fui visitar D. Eusébia. Achei-a a repreender um preto jardineiro, mas deixou tudo para vir falar-me, com um alvoroço, um prazer tão sincero, que me desacanhou logo. Creio que chegou a cingir-me com o seu par de braços robustos. Fez-me sentar ao pé de si, na varanda, entre muitas exclamações de contentamento:
— Ora, o Brasinho! Um homem! Quem diria, há anos... Um homenzarrão! E bonito! Qual! Você não se lembra de mim...
Disse-lhe que sim, que não era possível esquecer uma amiga tão familiar de nossa casa. D. Eusébia começou a falar de minha mãe, com muitas saudades, com tantas saudades, que me cativou logo, posto me entristecesse. Ela percebeu-o nos meus olhos, e torceu a rédea à conversação; pediu-me que lhe contasse a viagem, os estudos, os namoros... Sim, os namoros também; confessou-me que era uma velha patusca. Nisto recordei-me do episódio de 1814, ela, o Vilaça, a moita, o beijo, o meu grito; e estando a recordá-lo, ouço um ranger de porta, um farfalhar de saias e esta palavra:
— Mamãe... mamãe...



Links


Sanderlei Silveira (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

historia1minuto.com.br